Como fazer o querigma?

Não é fácil ter clareza sobre o que é e como realizar o querigma. A primeira ponderação que devemos fazer é a de serem evitadas duas posturas: uma visão muito ampla e outra muito estreita.  A muito ampla consistiria em afirmar que toda pregação do Evangelho já é um primeiro anúncio, porque o Evangelho ressoa de maneira sempre nova, inclusive a vida do cristão e porque o caminho de fé consiste em um permanente recomeçar. Ora, isso seria esvaziar a especificidade do querigma. Uma visão estreita, pelo contrário, tenderia a limitar o “primeiro anúncio” à proclamação da fé, calorosa e breve, de tipo querigmático, com o objetivo de suscitar uma conversão imediata, sem duração, sem debate, sem múltiplas mediações. Nesse caso, o primeiro anúncio se reduz a um estilo de pregação direto tanto na praça pública como nas relações interpessoais. Na verdade, o querigma se entende ao “primeiro anúncio” dos elementos da fé cristã que, sob formas variáveis e em determinados contextos, torna possível os primeiros passos na fé de pessoas que a desconhecem ou se afastaram dela. 
Recordemos que o querigma é um anúncio direto, profético, testemunhal, que parte da experiência do Ressuscitado. Deve surgir de uma experiência, até certo ponto, vital e positiva, que não se pode contagiar e compartilhar dela a todo momento: “Não podemos calar o que vimos e ouvimos, o que as nossas mãos tocaram da Palavra de Vida.” (1 Jo 1,1). É uma evangelização caracterizada como ponto de partida, que “toca” e mobiliza a pessoa inteira, num processo de busca por aquilo que dá sentido à sua vida.
Os destinatários do primeiro anúncio são aqueles que se afastaram da fé. Contudo, o destinatário é também interlocutor que é escutado, que se vai aprendendo a conhecer, que tem direito à palavra, com quem se estabelece uma relação de amizade. Nesse sentido, quem anuncia deve também se deixar ensinar por aqueles aos quais se dirige e apreender com eles. Não se esqueça de que antes de alguém fazer o querigma, será precedido pelo Espírito de Cristo ressuscitado. 
Os lugares para realizar o querigma são todos aqueles onde se desenvolve a vida, nas periferias geográficas e existenciais, nos espaços de lazer, de trabalho, de cultura, de formação, de meios de comunicação, momentos de dor, morte e angústia, situações durante as quais as pessoas procuram um sentido maior para viver.  Mas também os espaços internos da comunidade cristã são chamados a ser destinos de primeiro anúncio na medida em que, conforme o Evangelho, devem ser acolhedores e permeáveis ao seu entorno social: as celebrações da comunidade cristã e suas atividades caritativas ou culturais.
As pessoas que se dispõem a realizar o querigma devem ter feito a experiência do encontro com o Senhor, se entender como suas discípulas e, por isso, são missionárias. Quem crê anuncia. Não são pessoas prontas ou “perfeitas” no discipulado, mas membros de uma comunidade, as quais desejam que outros participem da alegria de seguir “o Caminho, a Verdade a Vida”. Sem comunidade não existe querigma. Ninguém se torna cristão sem uma comunidade, nem pode receber um anúncio que não seja para iniciar uma vida comunitária de fé. As comunidades cristãs são portadoras do primeiro anúncio pelo seu estilo de vida, seu espírito, suas assembleias, suas celebrações, seus projetos e seus compromissos.
As formas para realizar o primeiro anúncio são múltiplas.  Pode ser de forma narrativa e testemunhal, que é quando quem anuncia narra sua própria história e desperta nos ouvintes o desejo de crer. Outra pode ser a forma querigmática, quando quem anuncia proclama a fé cristã de forma breve, inteligente e cativante, tudo ao mesmo tempo,  como ocorreu com o Eunuco ao ouvir a explicação das Escrituras dada por Filipe. Pode ter uma forma expositiva, um catecismo para adultos ou uma obra teológica que proporcione um primeiro contato com a fé e acabe suscitando o desejo de crer, como ocorreu com Edith Stein ao ler o livro de Santa Teresa. Também pode ser de forma dialógica, por meio de um debate, de um intercâmbio de argumentos entre pessoas que, juntas, se interrogam sobre o sentido da vida e se esforçam para dar razão às suas convicções. Igualmente pode ter uma forma litúrgica, como uma homilia que converteu Agostinho ao ouvir Ambrósio na Catedral de Milão. A liturgia cristã, frequentemente, é assistida por pessoas afastadas da fé e pode exercer, para elas, um papel de primeiro anúncio. 
Resta-nos esclarecer os pontos essenciais do querigma, isto é, o seu conteúdo específico.  Embora não seja absolutamente rígido, o querigma é constituído dos seguintes elementos ou passos:

1) O amor de Deus: É preciso ter clareza ao afirmar: “Deus te ama: te acolhe, tu és Dele, Ele quer o teu bem. Ninguém te ama como Ele”; 
2) O pecado: Na liberdade, todo ser humano tem a tentação de se afastar desse amor fundante. O pecado é a experiência de afastar-se da fonte da vida. O anunciador precisa dizer com segurança: “Tu não podes te salvar por ti mesmo: vê a experiência de finitude, a necessidade de ser salvo, de indigência? Como superar o vazio do coração humano diante de tantas experiências que temos ao longo da vida?”;
3) Jesus é a única resposta: “Ele te salvou e perdoou. Nele fomos reconciliados. Ele é nosso caminho, verdade e vida, nosso último sentido. Sua pessoa e sua vida são guias e sentido. Em sua páscoa, encontramos o centro da nossa vida”; 
4) Fé e conversão: é preciso aceitar o dom da salvação e se unir a Cristo, vê-lo como aquele que nos oferece e se nos oferece como o melhor exemplo de vida, como pessoa realizada, como verdadeira salvação;
5) O dom do Espírito: a promessa é para ti: Jesus continua presente em tua vida pelo seu Espírito; Deus conosco. O Espírito é presença e força de Deus em mim e em ti; e
6) A comunidade: Jesus está no irmão: “Cristo não é só para mim ou só para ti, mas para nós.” O encontro com Cristo leva ao encontro com o irmão, nos faz pertencer à família de Cristo: a Igreja.
 
Finalmente, quem propõe o querigma precisa estar intimamente convencido de que o Evangelho dá sentido a toda sua vida. E deve se sentir como um enviado de Deus.  Considere que a primeira evangelização dirige-se a pessoas que nos escutam livremente. Tudo o que faça pressão ou manipulação leva ao afastamento.  Tenha presente que não interessa tanto pegar no megafone e ir para os centros comerciais “vender” o Evangelho. É muito mais importante estar disponível para tanta gente que procura um sentido, uma esperança, uma espiritualidade. Seja acolhedor! Pondere os métodos variados! Há diferenças de idade, de cultura e de experiência religiosa, as quais devem ser respeitadas. Perceba o momento oportuno! Não tem muito sentido propor o Evangelho a pessoas que dele não querem saber. A essas pessoas, nessa fase, é preferível lançar interrogações capazes de pôr em causa as suas certezas.

Dom Leomar Brustolin

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